Postagens

#do movimento do mundo, s/n

Imagem
Uma mulher rosa me atendeu. Fiquei esperando por quarenta minutos o médico que nem estava lá ainda. Achei uma falta de respeito e fiquei com vontade de falar. Ensaiei na minha cabeça o que eu falaria pras recepcionistas "Olha, eu acho isso uma falta de respeito. Não é porque é médico que eu sou obrigada a ficar esperando por quarenta minutos, até porque eu estou pagando -pagando". Mas, refleti melhor e decidi que meu argumento era fraco e que eu nunca vou ter cara de pau pra falar uma coisa dessas pra alguém. Respirei fundo, fiquei irritadíssima e continuei esperando. A recompensa foi que meu exame deu normal e eu sou muito saudável. E minha bunda ficou quadrada. Procurei uma bolsa, não achei. Procurei um óculos, não achei. Procurei me distrair da saudade, não consegui. Procurei não pensar nos meus amigos que estão longe, não consegui. Sempre procuro uma maneira de tapar esses buracos, mas não consigo. Sou completamente incompetente quando o assunto é esquecer. Não esqueço, n...

Seu louco querer

Imagem
Ela tinha milhões de coisas pra falar e, no entanto, só conseguia pensar em uma palavra: medo. Tudo o que sentia, tudo o que sabia sobre o amor simplesmente se perdeu quando o conheceu. Era como mergulhar em uma caverna, sem luz, sem saber a direção e, mesmo assim, saber que havia mergulhado no lugar certo, na hora certa.. E saber que estava indo pro lado certo porque de repente não importava o quanto de oxigênio ela ainda tinha. Não importava que, em alguns momentos ela sentia que escurecia ainda mais porque, chegando mais proxima do escuro ela sabia que encontraria logo uma luz. Era um absurdo, mas quem disse que não seria? Não havia manuais, não havia livros que conseguissem explicar o que ela estava sentindo e nem ela, tampouco, saberia explicar. Mas não era óbvio? O que mais poderia ser? Era claro que isso tudo fazia parte de uma coisa muito única, muito absurdamente grande em si mesma. Era amor, é amor. É amor que ela sente, que ela sentiu, que ela tinha plena consciência do que ...

Querida Aurélia,

Tem tempos que não te escrevo, eu sei. Tempo, que palavra é essa amiga? Me sinto inclinada a discordar de Drummond e achar que quem inventou a idéia de fatiar o tempo em horas, anos, minutos, meses foi um completo idiota. Me sinto prisioneira do tempo, como se eu dependesse dele pra tudo. Quero me organizar, quero mudar algumas coisas... E sempre me vejo pensando no tempo, o tempo que eu tenho pra fazer isso. Você me entende, amiga? Eu tenho a sensação que estou deixando alguma coisa escorre pelas minhas mãos, por mais fechadas que elas estejam... É como tentar segurar água, é impossível e frustrante. E sinto medo, porque penso em coisas que eu estou perdendo com o tempo correndo, acelerado. Faz sol, aqui. Sol e calor. Quem poderia imagina que não teríamos um inverno inverno de fato, depois de ver todas as vitrines de roupas novas e quentes? Venta um pouco, não nego. Mas já estamos no fim do inverno e eu nem usei minhas roupas novas... Não que sejam muitas, mas vou guardá-las para quan...

paradoxo do espetáculo

Imagem
Daqui alguns anos o que você terá feito da sua vida?! Tolo, perguntar. Eu sei que você nem sabe o que tem feito dela. Pra quem monta o espetáculo durante tanto tempo é normal assumir o papel do personagem em algum momento. Você está lá, atuando. Sorrindo. Trepando. Fazendo almoços em família. Aguentando pessoas que não te agradam, porque isso é que é almoço em família. Tentando unir duas "inuníveis", estilo romeu e julieta. Sempre foi assim e você sempre viu, mas já era tarde. Namoro, gravidez, casamento, fim. Fim de tudo que era planejado e não foi. Fim de tudo que você queria ser ANTES de ser mãe, mulher. Antes de ter o sobrenome do seu marido colado no seu. Agora não é mais mulher sozinha, é direita, se comporte. Isso significa não trair, não beber demais e voltar tarde, não sumir sem dar satisfação. Você tem filha e marido pra cuidar. E, como se não bastasse todos os erros que, convenientemente você enterrou no meio do caminho embaixo de pedras sem ao menos fincá-las ao c...

saudade.

"Já sentiu saudade?" - O velho pergunta inconformado. "É claro que já..." - Ela responde, olhando desconfiada pro senhor. "Ah, basteira, cê nunca deve ter sentido saudade como eu sinto". "Bom, tinha as vezes em que meus pais saiam e eu ficava com meus avós, com minha 'babá' e, quando eles demoravam pra voltar, eu começava a ficar incomodada..." "Ué, incômodo não é saudade... Incomodada com o que?" Ela parou um tempo, refletindo, e respondeu: "Bom, eu ficava incomodada com o fato de eles não chegarem logo, não atenderem seus telefones, não dizerem aonde estavam... E ficava incomodada porque eles não estavam comigo e ai meu coração ficava apertado e eu queria chorar mas não chorava, porque não queria que pensassem que eu era manteiga derretida...Logo, meu incômodo era saudade". Olhou pra ele apreensiva, vencera no argumento. O Velho refletiu, por sua vez, durante um tempo maior... Era muito velho, mesmo. Se apoiava em um...

Notas sobre uma decepção

Venho, através desse, justificar minha falta de presença neste blog. Estou passando por um período sombrio, obscuro e terrível da minha criatividade e capacidade de escrever. Falta assunto, falta inspiração, falta saber o que escrever. Escrevo cinco linhas e acho tudo um saco, um lixo. Não consigo mais produzir nada de pouco útil que seja, já que nada foi muito útil um dia. Me sinto vazia de palavras, não consigo expressar nada, verdade que talvez falte até motivos pra me expressar por aqui. Verdade também que eu já me prolonguei por muito tempo. Eu não sou uma escritora, nem de gaveta nem de blog, sou péssima. E o que me deixa isso visível é a minha não capacidade de criar nada novo e legal. Passar bem.

Meloso :)

"Irremediavelmente apaixonada". Sim, era de se esperar. Depois de tanto tempo tentando negar, quem diria. Na verdade, negar mesmo. Afinal de contas era absurdamente impossível não notar. E era absurdamente impossível negar. Já tinha se pegado várias vezes pensando nas infinitas possibilidades de enfim consumar o ato. Ela tinha a plena certeza que aquilo seria maior, bem maior do que ela imaginava. Pensou tanto, pensou que era mentira. Pensou que não tinha chances, era só ela mesma, e uma quantidade super grande de pessoas bonitas e milhões de vezes mais interessantes. Muita coisa na cabeça, muita. Muita contradição, o tempo todo. Foi quando, então, ganhou um gatinho no braço. E decidiu que não lavaria mais, nunca mais, porque afinal de contas era a forma de mantê-lo meio "vivo", ali. E ai descobriu que não precisava mantê-lo vivo dessa forma. Ele já estava cravado ali. Nas milhares de borboletas no estômago se agitando descontroladamente. Nas milhares de vezes em qu...