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#carta número 3

Minha querida, Tudo mudou e nada mudou. Sabe quando a gente fica assim com aquele sentimento de incompleto? Quando a gente espera assim, algumas respostas, alguns resultados e não sabe o que esperar? Esse calendário tá bagunçando tudo, meu bem. Há muito tempo eu não ficava assim, perdida no tempo, traçando planos irreconhecíveis e me enchendo de objetos de proteção, pro próximo ano que com certeza vai ser paulera. Bom, é que eu nunca acreditei também nessas coisas, mas sabe como é, a gente precisa se agarrar em alguma coisa pra viver porque se não fica feio... Cê sabe, tento buscar uma maneira de lutar, mas parece que nem isso tem sido suficiente... bom. Queria te contar que tirando isso - que infelizmente é tudo - não tenho nada pra contar. Nada é suficiente pra você. Nada deixa a gente com essa perspectiva de qualquer coisa, uma infinitude de coisas. Bom, tenho apostado minha ficha em todas as coisas que estão longe de serem certas, são só erradas, mas você me conhece bem o suficie...

de desistir.

Você tem uma caixa. Uma caixa tamanho médio, resistente. Uma caixa que serve para colocar todos aqueles probleminhas, aquelas indigestões, aqueles contratempos... Um, por um. No começo, organizados. Com o tempo eles vão se ajeitando sozinhos lá dentro. E eles se solidificam, com o tempo. Porque, com o tempo, todo mundo sempre diz - é o melhor conselho - com o tempo as coisas passam. As dores, as perdas, os amores e nós, mas o essencial, esses incômodos(zinhos) passam. Mas se solidificam, porque incomodos(zinhos) se tem essa mania de não ir atrás de resolvê-los, mas guardá-los na caixa. E, como se solidificam, ocupam espaço permanentemente na caixa e, com o o tempo, também, surgem novos problemas para se colocar na caixa e, um a um, se juntam, se amontoam. E você percebe que a caixa está cheia, entupida - prestes a transbordar. E você tenta inutilmente fechá-la, senta em cima, passa fita, empacota... Mas ela pode explodir. E você resolve pegar, esses problemas, olhar pra eles e resolvê...

sobre tanta dor

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A gente pensa que é sempre fácil, sentimos dor. Até decidirmos não sentir mais. Conheço, de conhecer, poucas pessoas, mas o suficiente para entender que a maneira como cada um lida com a sua dor é, em certos aspectos, única.  Sempre fui um elo fraco. Um componente exausto. Uma desistidora em potencial. Não sei lidar com a dor, e quando penso nisso até bate aquele desespero de perceber que existem dores muito, muito, muito maiores que eu poderia ter que enfrentar... E que não saberia como. Então, eu resolvi tentar, e decidi que, dali pra frente, aquele tanto de dorzinhas acumuladas ficariam para trás. E que eu estava curada, o tempo seria decisivo, eu entendia, mas eu tinha o suposto controle sobre mim e isso significa que eu era responsável por sofrer com aquela dor. Infelizmente (ou felizmente) a gente descobre que não existe valvulinha. A realidade muitas vezes faz papel principal nessa decisão. Com os pés pra fora de casa e com a cara de volta pro mundo, a gente percebe q...
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Encontrei uma maneira de tentar me manter em pé, doidera. Preciso sentir isso o tempo todo que eu puder porque eu não quero sentir absolutamente mais nada. Porque ai, parava um segundo e ...  Então vinha aquela sensação de vai-volta-vai. E o medo, o medo, o medo, o medo. E o eterno não ter certeza. O medo de ser perguntada do que é esse medo. O medo do medo ser sobre algo pequeno. O medo de não conseguir escrever mais, a única maneira de conseguir explicar esses sentimentos e, mesmo assim, já nao mais capaz. Uma certeza: Quando a gente já é assim, com essa pele sensível, essa membrana e nada mais e quando a gente aprende a ver as coisas, a perceber os detalhes, quando a gente entende como o mundo funciona e descobre que a felicidade é tão, tão, tão sutil, que a felicidade que existe hoje, para ser alcançada é tão hipócrita e amarga e descobre que é preciso encontrar a felicidade real que é a luta, a luta contra a mentira onde a gente existe... Quando isso acontece(r) é pra ser tã...

profundo

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Fica aquela vozinha, no fundo, gritando pra gente desesperadamente pra que a gente possa ouvir "anda, levanta... anda, tudo vai ficar bem". Eu minto pra mim mesma, eu estou tentando. E eu mesma digo que isso é mentira, eu não sou boa o suficiente para tentar. Estava deitada atrás da porta, olhando embaixo pela fresta, pensando num futuro que nem é meu. É tão longe, tão imperceptível. Vi algumas sombras, vivo tendo medo das sombras. Não consegui sentir o gosto do que é liberdade - essas amarras que eu mesma fiz, de passado, ficaram muito apertadas... o ser humano tem uma capacidade incrível de se afundar sozinho - e eu pude perceber isso, e pude entender como isso acontece: parece que, quanto mais fundo você vai e você se vira e olha para trás e as coisas vão ficando pequenas, tão pequenas, pequenas, pequenas e você não consegue enxergar. Não enxerga as paredes ao seu redor, não enxerga as escadas que aparecem, as cordas, as camas-elásticas e, o mais amargo de tudo, não en...
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Eu sinto uma dor. Uma incontrolável e longa dor. Um despropósito gigante que é viver. Uma angústia dentro, um poder corrosivo. Acho que venho perdendo a vontade. A perda vem se acumulando e as experiências não valem a pena. Mesmo os sorrisos parecem tão pequenos e incapazes de lutar contra isso. Não são armas, porque não vejo possibilidade. Devo ter sido derrotada e estive tentando me enganar... Qual o próximo passo, agora?

carta

"Querida Aurélia, Tem feito um frio anormal por aqui. Confundo muito se pensar é bom ou ruim pra isso que eu to sentindo, acho que é uma grande dúvida. Talvez, mas só talvez, eu esteja perdendo alguns sentimentos mais quentes. É verdade, Aurélia, que hoje, enquanto eu te escrevo, eu me sinto mais leve e mais dona da minha felicidade, porque tenho encontrado na escrita uma maneira de tentar dizer o que eu sinto. Mas ao mesmo tempo a sensação de vazio é tão grande que eu fico pensando se posso abarrotá-la de coisas outra vez... A questão é que eu nem sei como começar e também não tenho vontade de procurar. Enquanto chove, enquanto o ar esfria e enquanto eu penso em alguma solução maciça, minha alma tenta desesperadamente buscar uma lembrança. E ela nem é real. Perdoe-me por isso minha amiga, por esse tom. As coisas ficaram ruins, fugiram das minhas mãos. Fazia tempo, pra ser sincera, mas eu vinha empurrando pra baixo do tapete, tentando esconder aquilo que, por medo, eu não consegu...