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A militância da formiguinha: sobre amar e odiar o próprio corpo

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Só ontem tirei umas 20 fotos minhas, basicamente para mim mesma. Fiquei pensando depois que essa prática narcisista não deve ser boa, até que hoje li um texto de uma mulher feminista que afirma não conseguir sentir amor pelo próprio corpo  e o quanto isso suscitou nela algumas tristezas e contradições com o fato de se reivindicar feminista.  Eu não sei bem em qual momento comecei a me importar mais profundamente com a pauta feminista que discute o "empoderamento" de um ponto de vista subjetivo: a força da mulher, o ser guerreiras (lobas) e o que eu acho mais importante, como consequência de tudo isso, o tornar-se um sujeito político: com voz, com vontades, com opinião. Comecei a entender, a partir das minhas vivências e das minhas amigas e conhecidas, que o processo de descobrimento do próprio corpo e das vontades e questões individuais subjetivas fazia com que as mulheres, pautadas também pela "dissipação" do discurso feminista em suas mais variadas vertentes,...

“O plano é esse: nunca ficar doente”. Simplesmente assistam Eu, Daniel Blake.

Durante dois anos trabalhei no setor de atendimento da defensoria pública da união, onde os defensores contestavam, na justiça, as decisões negativas do INSS relacionadas aos pedidos de aposentadoria, pensões e auxílio doença – todos direitos previdenciários garantidos aos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil. Foram dois anos presenciando as mais confusas, tristes e cruéis histórias de vida que eu já vi. As pessoas que chegavam até nós já haviam passado pelas mais diversas formas de violência institucional gerada pelo Estado. Sim, pelo Estado. Começa na necessidade de saber utilizar um computador e a internet – que pode parecer engraçado para uma geração inteira que praticamente nasceu mexendo com isso, mas que é desesperador para quem não consegue entender as interações máquina/gente.  Diversas vezes eu e meus colegas realizamos os procedimentos “online” para alguém que não tinha condição nenhuma de fazê-los. E isso, longe de ser engraçado, é muito triste. Perdi a conta de...

Sobre tanta falta

Não há absolutamente nada que eu escreva aqui ou que eu pense que fará mais sentido depois de escrito, que vá conseguir expressar o que eu estou sentindo nesse momento. Talvez a ilustração mais plausível seja a metáfora que diz que o coração foi dilacerado. Eu acho que se eu pudesse explicar esse sentimento a alguém diria, com certeza, que meu coração foi dilacerado. Esmagado pela mão de um gigante. Esse não é um texto sobre a morte. Não tenho nenhuma competência pra falar disso. Nem sobre a vida. Queria que fosse alguma coisa que ajudasse a lidar com a ausência que a morte proporciona. Pensei que queria poder dizer sobre o que vem depois do dilacerar - o vazio que fica. (Vazio agudo). Em casa, perdemos um amor felino. Um companheiro cheio de personalidade, o Pablo. Viajei terça, a última vez que eu o vi. Eu disse que voltaria sexta, mas por um relaxamento de agenda, resolvi voltar sábado. Descobri de manhã que ele havia sido atropelado. Sabe, pensei muito nisso. Em quanto não faz ...

Polêmica: onde vamos com o feminismo só das "mana"?

Esses dias eu pensei numa coisa, que vou tentar traduzir da forma política mais saudável possível, porque é dessas pulgas atrás da orelha que não quer ir embora, e achei melhor não ignorar. O que me motivou esse pensamento foi a absurda tragédia que envolveu uma jovem chamada Lucía, na Argentina. O movimento feminista de diversos países, composto por diversos grupos diferentes, conseguiu organizar uma mobilização grande para manifestar a angústia que sentimos todos os dias, e nesse momento em particular, com a morte de Lucía. Mas, em meio a isso, surgiram algumas polêmicas envolvendo homens no protesto, esquerdomachos, o nome da campanha, etc, etc, etc. Não que polêmicas não sejam saudáveis, elas são. Mas me fez pensar no feminismo que anda a ganhar espaço ultimamente: É um feminismo que em discurso preza por agregar as mulheres (cortadas por diferentes opressões e, portanto que envolva as diferentes interseccionalidades) - mas que não permite "homem feminista". Que "p...

A dificuldade da responsabilidade afetiva X a falácia da raposa do Pequeno Príncipe

Um autor da pedagogia que li há um tempo atrás, no que tocava às questões pedagógicas, apontou que um dos principais problemas dos debates era o entortamento da vara para qualquer um dos extremos. Mais comumente as pessoas traduzem isso da seguinte forma: "fulano é muito 8 ou 80, isso é ruim". A última tradução me parece ser possível vislumbrar no título dessa reflexão. Como eu acredito que as crises estruturais que vivemos na sociedade afetam também nossas relações amorosas e afetivas, tenho pra mim que vivemo hoje uma intensa crise nas formas de relacionamento. Aquela dificuldade de se comunicar de forma honesta, de ser sincero com quem se relaciona sobre expectativas, buscas e sentimentos. Isso é incrivelmente difícil entre pessoas que estão travando conhecimento, o que é de se esperar. Não deveria ser difícil, no entanto, entre pessoas que já estão numa relação ou já se conhecem mais "profundamente". Mas, como nem todo pensamento "lógico" realmente é ...

sobre amor livre e subjetividades tantas

O amor é construção. As relações são construídas. Quando nos propomos a ter uma relação aberta (o tal amor livre)é, ao mesmo tempo, uma desconstrução. É a proposta de olhar para questões que, normatizadas, seriam problemas e se propôr a pensá-las conjuntamente. Não é perfeito, não é a resposta para os problemas da sociedade, não é livre realmente - isso não existe. Não é imune às opressões, inclusive também se é contaminado por elas. As relações são construídas objetivamente, mas dependem também dos sujeitos que as constroem, dispostos a isso, com seus vícios, sonhos, desejos, sentimentos.  Construí uma relação por três anos. Desconstruí nessa relação por dois. Tivemos os momentos maravilhosos, regados à paixão. Os problemas. Os ciúmes. Os medos e as crises, as brigas, as ausências, os planos, os sexos e carinhos, os beijos, abraços, risadas e lágrimas. Tudo isso dentro dos conformes das relações afetivas. Foram três anos em que cresci incrivelmente, mudei pra caralho e descob...

Opa! Se me va una pieza!

De tempos em tempos me movo para escrever. Ou melhor, o amor(e a falta dele) me move. As pessoas, as relações e as não-relações. Os conflitos, as decepções e as frustrações. Algumas borboletas no estômago, os sorrisos e carinhos. As risadas. Todas as coisas que foram e também as que poderiam ser. Assim, eu escrevo. Porque as vezes sinto uma necessidade enorme, que cresce apressadamente em mim, essa necessidade de transmitir às palavras aquelas coisas que eu sinto.  Brinco comigo mesma: fazer a sociologia crítica do amor não é tarefa fácil. Ainda mais quando o coração, vida que é, insiste em doerapertarsangrar todo dia.  A comunicação, tarefa árdua. A responsabilidade afetiva em ter responsabilidade com pessoas que nunca pensamos que teríamos - já que muitas vezes não temos nem com aqueles que supostamente deveríamos ter. As tantas, várias, muitas assimetrias - sobre as quais nunca podemos falar, tabu intocável que é "discutir relações" quando, na verdade, deveríamos pode...